
Jaú, 4 de dezembro de 1986.
Meu Neto
Há tempo não lhe escrevo. Acontece que a vida de sua avó sofreu muitos imprevistos.
Aquele barquinho que navegava em águas tranquilas, quase soçobrou em meio a grandes tempestades.Quantas vicissitudes!
Vi seu tio, tão moço, cheio de esperanças, ir pouco a pouco, se " definhando", sem que a medicina fosse capaz de livrá-lo de insidiosa moléstia. Logo seu tio, que nunca fumou, sempre teve cuidado com a saúde, foi acometido de câncer nos pulmões. Não dá para entender. Lembra-se como ele forte, vendia saúde, gabava-se de nunca precisar de remédios?
Mas, os desígnios de Deus são imutáveis. Mesmo assim eu lhe rendo graças por ter me dado um genro que soubesse oferecer à minha filha e aos seus filhos anos de felicidade.
Dou graças à Deus pelos vinte e três anos de um casamento sólido, quando há hoje tantos lares destruídos. E como foram unidos. Esposa e filhos se desvelaram junto ao leito, sem fraquejarem, solícitos ao menor apelo do doente, até os seus últimos momentos. Ainda os vejo ora ajeitando a máscara de oxigênio, ora o soro, com muito amor e carinho.
Dou graças à Deus pelos amigos que ele soube conquistar em Presidente Prudente e que foram de uma grande lealdade.Revezavam-se no atendimento ao doente dando-lhe palavras de conforto e amparo.
Agradeço aos adeptos de todas as religiões, que procuravam minorar-lhe os sofrimentos com suas preces. Lembro-me dele quando mesmo gerenciando banco, procurava estuda à noite, juntando ao diploma de contador da Academia Horácio Berink, os de economista, administração de empresas e advogado. Não media sacrifícios para vencer na vida, ocupando em Prudente os cargos de Presidente da Associação Comercial do Lions Clube e do Mobral.
Recebeu da Cãmara Municipal a medalha de mérito " Colonizador Cel. José Soares Marcondes"
pelos serviços prestados à coletividade prudentina, homenagem essa que contou com o apoio da imprensa, rádio, dos sindicatos e associações. Nela esteve reunida toda a família e confesso- lhe que ficamos envaidecidos e emocionados. Quis o destino que ele não pudesse colher nem o fruto da aposentadoria.
Eu e seu avô ficamos eternamente gratos com o calor humano que os prudentinos mostraram nessa fase triste que passamos. Agradecemos também à todos aqui que compartilharam com a nossa dor. Mas, sua última vontade foi cumprida: queria ser enterrado em Jaú, junto dos parentes.
Queria Deus que depois desta tempestade, venha a bonança, embora a saudade seja imorredoura.
VOVÓ GUITA

