No meu tempo...Quando eles eram pequenos...é o bastante para puxar o fio da memória e iniciar um relato de vida. Pinceladas de vida se armazenam na memória do tempo. A emoção carrega nas tintas colorindo mais este ou aquele pormenor e esmaecendo o pano de fundo: A lembrança. Realidade ou fantasia? A recordação toma do pincel, recriando quadros com a nitidez do presente.Para emoldurá-los é evocada a saudade.Basta apenas a autora assinar o seu nome. "REMINISCÊNCIAS"
Entre São Pedro do Turvo e Santa Cruz do Rio Pardo, há o rio Turvo que separa os dois municípios e uma estrada que os une. Essa estrada, embora precária, era passagem obrigatória para os são pedrenses que iam para São Paulo,fazer compras e para nós, estudantes de Botucatu. De Santa Cruz, tomávamos o trenzinho ( a Maria Fumaça) e íamos até Bernardino de Campos apanhar o tronco da Sorocabana. Santa Cruz era um ramal da ferrovia. Daquela estrada guardo recordações: Umas alegres, outras amargas. Alegres quando, nas férias, o nosso fordinho (pé de bode) a transpunha aos trancos e barrancos e chegávamos sãs e salvas, mas felizes, para assistir a um cinema ou baile em Santa Cruz. As horas amargas, corriam por conta das chuvas que a deixava intransitável. Aí era um suplício! O ford bailava na estrada escorregadia. Não obedecia a direção. Era o senhor da situação! Teimava em ir onde queria, até atolar-se e não sair do lugar. Então não havia remédio senão deixar o turrão e empurrá-lo. Catava-se galhos de árvores, colocava-se sob a roda atolada e se isso não bastasse, usava-se o macaco.Se não andar naquele barro escorregadio? Patinava-se sem ter patins.éramos equilibristas. A subida das Perobas e o hotel do Tufic eram os locais do suplício. O hotel do Tufic ganhou esse nome porque seu Tufic encalhou o carro e teve que passar a noite no local. A irreverência do povo batizou-o assim... Mas a ponte do Turvo e a estrada serviam de pretexto aos políticos que apareciam em São Pedro à cata de votos. Era sempre assim! Esquecíamos que tínhamos sido ludibriados e púnhamos fé nas promessas que íam aparecendo. São Pedro precisava escoar a produção, acabar com o sofrimento na estrada. Acontece que os políticos de Santa Cruz não liam na mesma cartilha dos políticos de São Pedro. Meu cunhado criou o Ginásio, fez a rede de esgotos em São Pedro e nada de estrada! Faltava a cooperação dos políticos de Santa Cruz. O melhor era voltar-se para Ourinhos. E saiu a estrada asfaltada, tão desejada e Ourinhos carreou os produtos e o comércio de São Pedro. Hoje soube que o secretário dos Transportes prometeu asfaltar a estrada de Santa Cruz a São Pedro. Alvíssaras!!! Depois de mais de cinquenta anos de espera, eis a notícia alvissadeira! Também vocês não acham que sou uma velha implicante, ranzinza? Jacob serviu Labão tantos anos por causa de Raquel e ainda achou que para tão longo amor, tão curta a vida! Pois é, para sair a estrada, tão curta a vida!
Tornei-me à Santa Cruz. Acontece que meus seis netos, vindos de Presidente Prudente, acharam por bem passar as férias com minhã irmã, na casa que era da minha mãe. O Rio Pardo exerce sobre eles grande atração, principalmente o Clube Náutico que lhes oferece horas de lazer. Os pais de uns estão gozando as férias no Nordeste, enquanto os outros foram conhecer o Pantanal antes que ele se acabe. Para "aumentar o time", vieram duas sobrinhas - netas do Rio, cujos pais estão em um congresso na Irlanda. Como criança atrai criança, os primos de Santa Cruz também vêm se reunir e está armado o circo. Discutem, brigam, mas, não se largam! Até para armar o jogo de futebol. Sempre há um lider que distribui os jogadores no campo e dita as regras do jogo. O Duda é o tal e até ganhou apelido de Ulisses Guimarães. Rogério não vê com bons olhos a liderança do Duda. Teima em não aceitá-lo.é o Covas! Mas depois de tanta discussão, entram em um consenso (estou parodiando a Assembléia) e lá vai a turma jogar no Náutico. E todos se esquecem das horas. Daí a pouco ouve-se um vozerio. São eles que estão chegando. Pela sujeira das roupas, o jogo foi renhido. O menorzinho chama o primo de " frangueiro", pois deixou passar muitas bolas. Chegou a minha vez de agir. Obrigo-os ao banho. Não há banheiros para todos de uma vez. Brigam, discutem, até que vou apaziguá-los. Jantam e correm para a televisão. Em Santa Cruz a Globo é o canal que pega melhor. Os outros não são nítidos. Para que tudo corra bem, ficamos com eles na sala. Mas a Globo não coopera: Além daquelas intragáveis vinhetas " Esta onda pega", há a propaganda de prevenção à Aids. Fernando , o caçula, está com os olhos pregados na televisão.Presta muita atenção na atriz Irene Ravache, ensinando a previnir a doença. Não se conteve. -Vó , a Aids mata mesmo? -Mata sim. - Então você faz uma camisa de mangas bem compridas e gola alta para eu não pegar Aids? Minha irmã sai rindo. Os maiores trocam olhares maliciosos. Aproveito, desligo a televisão e coloco-os na cama. -Todos vão rezar e pedir ao " Anjinho da Guarda" que tenha paciência com vocês. Mas até a hora de rezar eles se fiscalizam. -Vó, o Fernando não rezou. Ele não abriu a boca. Fernando, sonolento, responde: -Rezei, sim, vó, rezei nos pensamentos. Rio, apago a luz e dou-lhes uma "boa noite". Vai daí que me lembro da minha mãe quando dizia que os netos davam-lhe duas alegrias : O dia que vinham e o dia que iam embora.
O Colégio São Luís, em São Paulo, não dá trégua aos alunos, nem nas férias. Vai daí que meu neto quis valer-se dos meus préstimos. - Vó, você me ajuda a falar sobre Ulisses? - O quê? Ulisses Guimarães, aquele presidente do PMDB, que quer continuar no cargo, ser presidente da Cãmara, vice-presidente da República e não sei mais quantos cargos? Valha-me Deus! Ele e a bancada do seu partido estão numa euforia de distribuição de cargos e favores que se esqueceram da Constituição. Não, não conte comigo. -Tá biruta, vó? (olha a irreverência) é o Ulisses da guerra de Tróia. - Ah! Aquele Ulisses que não enrolou o povo com palavrório, mas foi a expressão máxima da força e coragem? -É vó, é a Odisséia que já li e tenho que resumir. -Presente de grego você me deu. Vou ter que ler toda Odisséia? - É vó, faça-me este favor. Essa é boa, ter que sair de Tróia com o barco de Ulisses à deriva, chegar à terra de Cíclopes, da feiticeira Circe e em não sei quantas ilhas e guardar todos aqueles nomes esquisitos. No meu tempo de estudante era um verdadeiro castigo ter que ler a Ilíada e a Odisséia.Detestava mitologia grega. E agora? Por causa do neto, tenho que aguentar o Ulisses. Mas, comecei a ler. Torcia para o nosso herói chegar logo à sua terra ítaca, mas qual, o barco teimava em ir a outras plagas. Pulei folhas, lia por cima, mas, nada de Ulisses chegar. Dez anos vagando por mares desconhecidos, errando sempre o caminho. Penélope, sua fiel esposa, exemplo de fidelidade conjugal, não perdia a esperança de vê-lo de volta (Será que ainda há Penélopes em nossa era?). Pulei mais folhas até entregar Ulisses são e salvo à Penélope. Final feliz! Arre! Suspirei aliviada e entreguei o resumo ao neto. -Vó, você sabia que o Homero, o autor de Ilíada e Odisséia era cego? Pensei: Calcule se enxergasse! Depois fiquei matutando. A gente estuda tanto, queima as pestanas nos livros e pensando bem, o que adianta saber se o fraco do Aquiles era o calcanhar, se Herôdoto era o maior historiados grego, os poemas épicos de Homero, Virgílio, se não passei de uma simples professora primária, com um ordenado inferior ao de uma faxineira que nunca esquentou a cuca? Então bati os olhos em uma frase dita por um recém-eleito governador que está se tornando folclórico nos anais da política. Disse que vai batalhar no seu governo pelas três letras: O, Ç, C : " Onestidade, çaúde e cegurança". Não falou nada sobre educação. Também pra quê? Ele não teve necesidade dela para se eleger! É, como diz Araci de Almeida: " Estamos conversados".
Com tanto assunto sobre política, desafios verbais, violência, essa reforma agrária que está num impasse, que tal escrever sobre coisas mais amenas? Vai daí que no dia 31 de julho, minha família estava presente na platéia do Palácio das Convenções do Anhembi. Era colação de grau dos formandos da Faculdade de Engenharia Industrial e ,um deles, era meu neto (avó coruja, não?). Para falar a verdade, essas festas " não fazem o meu gênero".São cansativas, monótonas, com tanto discurso e entrega interminável de diplomas. Assim o pensei, lembrando- me de outras que há tempo as assistia. Mas meu neto prometeu-nos descontração, alegria, contando para isso, com a orquestra e coral Bacarelli, um organista de fama e um bom locutor que discorria sobre o desenrolar das festividades. De fato, estava tudo bem organizado. Os formandos alinhadíssimos nos seus "smokings", tomaram lugar no palco atrás da grande mesa ocupada pelos professores, diretores e paraninfo. A decoração estava belíssima. O Hino Nacional, cantado pelo coral, deu início à solenidade. Antes , porém, que o locutor anunciasse outro número do programa, o inesperado foi acontecendo. Um formando levantou-se e sem a menor cerimônia, abriu um cartaz com os dizeres: " Manhê, tô aqui!". Quando sentou-se foi a vez do outro levantar-se, com o seu : " Paiê, você não acreditava". E assim, cartazes humorísticos foram aparecendo em todos os intervalos. Aquela irreverência, descontração e informalidade dos rapazes tornaram a festa alegre e as horas passaram céleres. Contribuíram também, as músicas do coral, bem ao sabor daquela mocidade tão linda, tão descontraída. As composições de Milton Nascimento, Chico Buarque, foram-se sucedendo. Para terminar, saudando a volta dos formandos ao lar, foi apresentada a música; " Estou voltando". Confesso que não vi o tempo passar, nem fiquei entendiada com os discursos que, aliás, foram curtos e precisos.
Há tempo não lhe escrevo. Acontece que a vida de sua avó sofreu muitos imprevistos. Aquele barquinho que navegava em águas tranquilas, quase soçobrou em meio a grandes tempestades.Quantas vicissitudes! Vi seu tio, tão moço, cheio de esperanças, ir pouco a pouco, se " definhando", sem que a medicina fosse capaz de livrá-lo de insidiosa moléstia. Logo seu tio, que nunca fumou, sempre teve cuidado com a saúde, foi acometido de câncer nos pulmões. Não dá para entender. Lembra-se como ele forte, vendia saúde, gabava-se de nunca precisar de remédios? Mas, os desígnios de Deus são imutáveis. Mesmo assim eu lhe rendo graças por ter me dado um genro que soubesse oferecer à minha filha e aos seus filhos anos de felicidade. Dou graças à Deus pelos vinte e três anos de um casamento sólido, quando há hoje tantos lares destruídos. E como foram unidos. Esposa e filhos se desvelaram junto ao leito, sem fraquejarem, solícitos ao menor apelo do doente, até os seus últimos momentos. Ainda os vejo ora ajeitando a máscara de oxigênio, ora o soro, com muito amor e carinho. Dou graças à Deus pelos amigos que ele soube conquistar em Presidente Prudente e que foram de uma grande lealdade.Revezavam-se no atendimento ao doente dando-lhe palavras de conforto e amparo. Agradeço aos adeptos de todas as religiões, que procuravam minorar-lhe os sofrimentos com suas preces. Lembro-me dele quando mesmo gerenciando banco, procurava estuda à noite, juntando ao diploma de contador da Academia Horácio Berink, os de economista, administração de empresas e advogado. Não media sacrifícios para vencer na vida, ocupando em Prudente os cargos de Presidente da Associação Comercial do Lions Clube e do Mobral. Recebeu da Cãmara Municipal a medalha de mérito " Colonizador Cel. José Soares Marcondes" pelos serviços prestados à coletividade prudentina, homenagem essa que contou com o apoio da imprensa, rádio, dos sindicatos e associações. Nela esteve reunida toda a família e confesso- lhe que ficamos envaidecidos e emocionados. Quis o destino que ele não pudesse colher nem o fruto da aposentadoria. Eu e seu avô ficamos eternamente gratos com o calor humano que os prudentinos mostraram nessa fase triste que passamos. Agradecemos também à todos aqui que compartilharam com a nossa dor. Mas, sua última vontade foi cumprida: queria ser enterrado em Jaú, junto dos parentes. Queria Deusque depois desta tempestade, venha a bonança, embora a saudade seja imorredoura.
Bem -vindos ao Blog dedicado à Nilza Guimarães Carboni que durante anos escreveu crônicas para o jornal "COMÉRCIO DO JAHU"! Aqui vocês encontrarão algumas de suas crônicas e uma homenagem saudosa à essa professora, mãe e avó dedicada. Deixem seus comentários !