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Fotografia de Simone.Carboni.P.
18 de Maio de 1991.
Há alguns anos li uns livros do escritor austríaco Stefan Zweig que, tendo abandonado a Europa durante a perseguição nazista, suicidou-se no Brasil, em Petrópolis, em 1942.
Deles o que me deixou forte impressão foi " 24 horas da vida de uma mulher".
Nele o autor mostra como a vida de uma pessoa pode transformar-se de um momento para o outro, por situações nunca antes sonhadas. Da alegria passa-se à dor numa reviravolta tão rápida e constrangedora que muitas vezes pensamos que o mundo vai desabar sobre nós.
As inquietudes sempre estão à nossa espreita, mormente quando sentimos o peso dos anos. Outro dia estava toda feliz, fazendo planos de encontrar-me com a minha família em uma festa de casamento de um sobrinho, quando meu marido falseou ao pegar uma escova e quebrou o fêmur.
Num abrir e fechar de olhos troquei uma festa por um quarto triste de hospital.
No mesmo dia em que meu marido foi internado, entrou um senhor moço na UTI, enquanto sua senhora aguardava na sala de espera ansiosa pensando tratar-se de um derrame ou meningite.
Na manhã seguinte recebeu de chofre a notícia de que o marido havia falecido de aneurisma. As cenas que se seguiram foram horríveis. A vida daquela mulher transformou-se em menos de 24 horas, não podendo mais contar com o apoio do marido para criar os filhos.
Quando se está feliz, colhendo rosas no caminho da vida, esquecemo-nos que os espinhos estão à espreita. Se caminhamos por um vale verdejante logo temos que galgar uma montanha. Nossa vida é cheia de altos e baixos.
Mas, como diz o poeta, " quem passou pela vida em brancas nuvens, quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, não foi homem, passou pela vida e não viveu ".
Vivamos, pois, intensamente os momentos felizes, a infância, juventude e mocidade. Nelas " as esperanças vão conosco à frente e os desenganos vão ficando atrás". Mas na velhice acontece o contrário " Os desenganos vão conosco à frente e as esperanças vão ficando atrás".
Mas em meio à desgraça, há um lado positivo. Fiquei conhecendo a nova Santa Casa e vi que pela sua organização não fica nada a dever às maiores de São Paulo. O corpo de enfermagem é ótimo. Senti-me amparada pela dedicação e bondade das enfermeiras e todo o pessoal da limpeza. À elas o meu muito obrigada ! Aos clínicos que trataram do meu marido, meus agradecimentos. Graças à Deus que há sempre uma luz no fim do Túnel.
VOVÓ GUITA
Obelisco - Símbolo da Revolução Constitucionalista de 1932
Foto: S.C.P.
10 de Julho, de 1991.
O mês de Julho me faz recordar como vi e vivi a Revolução de 1932 quando quase adolescente, era estudante em Botucatu. Naquele tempo tínhamos arraigados em nossos corações uma grande amor e orgulho pelo Estado de São Paulo. Nosso Estado sempre recebeu de braços abertos nossos irmãos brasileiros que junto aos imigrantes o tornaram o mais rico e poderoso do país.Mas essa hegemonia foi quebrada com a revanche do getulismo instalado desde 1930. Os paulistas sentindo-se esmagados pela opressão getulista se rebelaram dando início à revolta com a morte de quatro estudantes na Praça da República : Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo que deram origem à sigla M.M.D.C. .
São Paulo todo se levantou e todos os paulistas, sem distinção de cor , raça e condições sociais se engajaram na luta. Muitos eram os Estados que apoiavam o ideal da Revolução que era exigir a volta do regime Constitucional perdido há dois anos.
Mas, quando São Paulo se levantou todos se silenciaram. Somente Mato Grosso e Paraná foram nossos aliados. São Paulo garantiu três meses essa luta fraticida. Faltou dinheiro para compra de armas, mas, as mulheres paulistas ofereceram até suas alianças para a campanha do " Ouro para o bem de São Paulo". Foi sobre estas alianças que o poeta paulista Guilherme de Almeida fez a poesia:
MOEDA PAULISTA
Moeda Paulista, feita só de alianças,
Feita do anel com que o Nosso Senhor,
Uniu na terra duas esperanças,
Feitas de tudo o que restou do amor!
Quanto vale essa moeda? Vale tudo!
Seu ouro eterniza um grande ideal!
E ela traduz o sacrifício mudo
Daquela eternidade de metal.
Ela que vem das mãos dos que se amavam,
Vale esse instante, que não tinha fim,
Em que dois sonhos juntos se ajoelharam
Quando a felicidade disse :"Sim"
Vale o que vale a união de duas vidas
Que riram e choraram a uma voz,
E, simbolicamente desunidas,
Vão rolar desgraçadamente sós.
Vale a grande renúncia derradeira
Das mãos que acariciam maternais,
O menino que vai para a trincheira
E que talvez...talvez não volte mais...
(Guilherme de Almeida)
Minhas homenagens aos jovens paulistas que morreram heroicamente defendendo um ideal, e a todos que lutaram pela volta do regime constitucional ludibriado pelo getulismo.
VOVÓ GUITA
Vovó Guita e seu irmão gêmeo "Lalau"
23 de maio, de 1992.
Ninguém suporta mais as notícias veiculadas pelos jornais e televisões sobre a ruptura de ética que se alastra em todo o país: corrupções, nepotismo, permuta de favores que envolvem todos os escalões dos poderes da nossa combalida República.
Deixemos de lado esses escândalos que tornam o nosso congresso desacreditado e volvemos os olhos para as coisas boas da vida. Lembremos que estamos de passagem neste Mundo e que num abrir e fechar de olhos caimos na terceira idade, naquela que diz o poeta : " Os desenganos vão conosco à frente e as esperanças vão ficando atrás".
Nessa idade sentimo-nos felizes pela missão cumprIda, pelos esforços que fizemos em vencer a caminhada, nem sempre colhemos rosas, também espinhos, pedras, nuvens negras mas, muitas vezes mar sereno e a proteção Divina. Eis que sentimo-nos sós a solidão e a saudade vêm à nossa porta. Os filhos casados, cada qual com seus afazeres, parentes e amigos que ficaram pelo caminho, as sequelas que acompanham essa idade fazem com que tornamo-nos melancólicos e carentes de afeto. Para evitar esses transtornos, muitos idosos recorrem ao lazer das viagens, fazem trabalhos comunitários, procuram trabalhar em serviços de acordo com as suas aptidões.
Mas a velhice para as pessoas de baixa renda, para as carentes, é um transtorno.
Os idosos julgam-se um estorvo para a família, pois vêm a pesar no minguado orçamento sem poder colaborar, muitas vezes doentes e desnutridos. Ficam alijados como párias na sociedade.
Há porém uma luz no fim do túnel. Almas boas se preocupam com a situação desses velhos e foram criados os Centros Comunitários de Idosos que além da cooperação da sociedade teve a ajuda dos poderes públicos através das prefeituras que , sem discriminação de partidos políticos, puseram em prática tão benemérita instituição.
Os C.C.Is. fazem-se sentir em muitas cidades e, em Santa Cruz do Rio Pardo, onde foi criado há dois anos, tornou-se o baluarte de todo o Vale do Paranapanema, quer pela sua organização, quer pelo número de seus associados que vêm nele a alegria de viver.
Lá recebem aulas de ginástica, trabalho em artesanato, alfabetização, reuniões esportivas, danças e ensinamentos religiosos. Sempre viajam pelas cidades vizinhas a passeio ou intercâmbio cultural esportivo como há pouco o fizeram em Marília na II Olimpíada de Idosos.
Dá gosto ver esses idosos de todas as camadas sociais, sem diferença de raça, nacionalidade ou condições sociais, irmanados como se fossem uma grande família.
VOVÓ GUITA
Foto de Simone Carboni
01 de junho, de 1991.
A vida do brasileiro está cada vez mais complicada. Não há nada estável neste país. O nosso sistema monetário muda a três por dois , nossa ortografia está sempre procurando rumos novos, nossa economia cria palavras tão complicadas que é para o povo não entender mesmo. Agoram vieram as siglas. A gente vai só pagando o IPTU, LP, CV, IP, IR, e assim por diante. Só sei que pago chorando. Mas outro dia quase decifrei uma sigla : " BB agora resolveu cuidar dos animais em extinção" Pensei : O Banco do Brasil com tanta coisa pra cuidar vai dar um de ecologista? Mas, não era o Banco do Brasil, não, era a atriz Brigitte Bardott. Também essas siglas só servem para atrapalhar.
Estou até tomando ogeriza por elas e torcendo para a criação de um dicionário próprio que nos servisse de tira-dúvidas. Hoje, porém, dei com uma bem interessante: AEME. Garanto que vocês não irão acertar. Trata-se da "Associação dos Ex- Maridos Explorados".
Coitadinhos, sentindo-se desamparados, resolveram unir as forças. Um por todos e todos por um.A união faz a força. As mulheres não se uniram reivindicando seus direitos de igualdade perante a lei?
Pois, agora é a vez deles,principalmente aqueles que pagam pensão alimentícia às ex-mulheres, muitas delas capacitadas para o trabalho. Começou a guerra dos sexos.
Foi criada no Rio a AEME. A moda está pegando e outras associações congêneres estão sendo espalhadas por outros estados. Se a Constituição de 1988 declara expressamente que homens e mulheres têm direitos e obrigações perante a lei, não é de se estranhar que judicialmente a mulher se vê obrigada a pagar pensão ao ex-marido. Lei é lei !
Diziam os antigos que o Diabo tanto pintou o olho do filho que até furou.
As mulheres reivindicaram tanto os seus direitos que os homens agora estão gritando, principalmente os ex-maridos inconformados com as pensões alimentícias às ex-esposas.
Cuidado mulheres ! O feitiço pode virar contra o feiticeiro.
VOVÓ GUITA

11 de dezembro de 1990.
A primavera é saudada no Vale do Paranapanema, por um coral diferente. Ele se apresenta desde o raiar do dia e se estende ao anoitecer. Seus componentes cantam de graça sem se preocupar, se agradam ou não os ouvintes.
São as cigarras que às centenas, pousam nos arvoredos e dão vazão à muita alegria. A cantoria tem início com um prelúdio a uma voz e que , num passe de mágica é acompanhado por dezenas de vozes formando um estridente coral. Há algumas cujo canto sobressai o das outras. São as solistas.
Ouvi-las ainda ao amanhecer, no aconchego de uma cama, nosso pensamento começa a devanear. Que bom seria se a vida fosse uma eterna alegria, sem preocupação, sem declínio, como das cigarras tão despreocupadas que o dia se torna mais radiante, o canto se torna cada vez mais alto até encobrir o chilrear dos pássaros.
Cansam-se, param para recomeçar tudo de novo. Assim vão o dia todo. Mesmo com o Sol a pino , não param de cantar.
Conforme o nosso estado de espírito a cantoria ora é alegre, ora melancólica e muitas vezes , irritadiça.
Na minha infância costumava ficar embaixo das árvores para ver se caíam mortas, pois diziam que a cigarra canta para morrer.
Creio que era lenda pois só conseguia apanhá-las vivas.
Embora o fabulista grego Esopo imortalizasse-as como preguiçosas que vivem no " doce far niente", sem trabalhar, ao contrário da formiga, mesmo assim eu as admiro, pois quem canta , seus males espanta.
Felizes aqueles que trazem alegria no coração e sabem traduzi-la cantando.
VOVÓ GUITA